Lendas da Caxemira: conheça o local onde Jesus teria tido filhos

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Srinagar, Caxemira / Foto: Sebh via Visualhunt.com / CC BY-SA

Minha primeira viagem à região da Caxemira (Índia) aconteceu em 1994, em um período que turismo de risco era o suprassumo para viajantes e peregrinos desejosos de ação. Localizada na fronteira entre Índia, Paquistão e China, a Caxemira sempre foi um barril de pólvora pronto para explodir. Logo após a independência do domínio inglês em 1947, Índia e Paquistão entraram em guerra por três vezes (1948 1965 e 1971). O principal foco das retaliações era a posse da Caxemira, onde os hindus controlam 2/3 e os paquistaneses 1/3.

Srinagar / Foto: ZeePack via VisualHunt / CC BY-ND
Srinagar / Foto: ZeePack via VisualHunt / CC BY-ND

Conheci lugares maravilhosos e desfrutei durante alguns dias na capital Srinagar morando em um houseboat (casa-barco) a beira do paradisíaco Lago Dal. Excursionei até as estações montanhosas de Sonamarg e Pahalgam, onde vislumbrei as cadeias montanhosas com neve perene. Minha intenção era praticar um trekking e permanecer durante alguns dias. Ficamos na vontade, militares indianos nos expulsaram e nos mandaram de volta para a capital.

Montanhas de Sonamarg e Pahalgam
Montanhas de Sonamarg e Pahalgam

O mal-estar estava presente desde o primeiro dia. Quartéis, militares armados, bunkers de metralhadoras e blitzes a todo o instante sufocavam nossa presença. Para vocês terem uma ideia, segundo fontes do governo indiano, mais de um milhão de soldados de ambas as partes aguardavam a eminência de uma guerra sangrenta. As hostilidades entre as duas potências levaram a uma frenética corrida armamentista em que, a partir de 1998, tanto Índia como Paquistão entraram no reduzido clube dos países detentores de armas nucleares.

O que instigava minha curiosidade, além da minha sobrevivência, era a suposta lenda da tumba de Jesus Cristo em algum local da capital Srinagar. Durante anos, esta história reverberava feito mantra em minha calota craniana.

No ano de 2004, voltei a Caxemira logo após observar os noticiários de TV e jornais anunciado que um armistício zelara um pseudo acordo de paz entre os dois países. O clima de guerra e os atentados terroristas continuavam pela região; tanques, bunkers, armas e militares transbordavam por todos os lados. O clima estava tenso. Tive que sair novamente da Caxemira.

Shikara (gôndola típica)
Shikara (gôndola típica)

Em 2013, retornei a Srinagar e um amigo local havia localizado a suposta tumba de Jesus Cristo. Aproveitava os dias para percorrer nas shikaras (gôndolas típicas) os canais, mercados flutuantes e jardins aquáticos dos lagos Dal e Nageen. Espremidos entre os lagos e as montanhas, visitei os exuberantes jardins Nishat Bagh (Jardim do Prazer) Nasim Bagh (Jardim da Brisa Matinal) e o suntuoso Shalimar Bagh (Jardim do Amor) encomendados pelos imperadores mongóis Akbar e Jehangir (o mesmo do Taj Mahal) entre os séculos XV e XVI. Três autênticas obras-primas do estilo persa-mongol.

Shalimar Bagh / Foto: shahbasharat via Visual hunt / CC BY
Shalimar Bagh / Foto: shahbasharat via Visual hunt / CC BY

Na noite da Lua Cheia, o tal amigo surgiu e disse que nos levaria ao mausoléu de Jesus na manhã seguinte. Reli todos os textos investigativos e fiquei em polvorosa aguardando o amanhecer. Segundo um apanhado geral de lendas, nosso abençoado Jesus teria ido para a Caxemira depois da crucificação e, na borbulhante região, constituído família tendo direito a filhos e netos.

O sol aparecia com todo o seu vigor nas dobras das montanhas e nosso impávido guia destilava: “A tumba está localizada no bairro der Khanyar, subúrbio da cidade. O local é venerado pela seita islâmica Ahmadija”. Minha parabólica estava antenada. Seita islâmica. Sei não. Que medo!

Templo de Jagannath / Foto: BOMBMAN via Visualhunt / CC BY
Templo de Jagannath / Foto: BOMBMAN via Visualhunt / CC BY

Minha pesquisa era a seguinte: Jesus viajara pela Índia e Ásia Central durante anos. Existe um hiato no período entre os 12 e 25 anos do jovem de Nazaré que os textos sacramentados nada esclarecem. Por onde ele andou? Segundo diversas fontes, antigos textos indianos, os ‘livros perdidos da Bíblia’ e incontáveis escritos por sociedades secretas como essênios, gnósticos e rosacruzes, Jesus Cristo saíra de caravana de Jerusalém convidado pelo príncipe Ravana de Orissa (Índia). Durante quatro anos ele estudou no templo de Jagannath, na cidade de Puri. Quando estava com 17 anos, passou por Benares (Varanasi) e seguiu viagem para Kapilavastu (atualmente Lumbini) no Nepal, cidade natal de Buda. Ficou um tempo em Khatmandu e mergulhou para Lhasa, no Tibete. Passou um período estudando com o sábio chinês Meng-Tse (Mencius) e voltou a sua terra de origem, percorrendo a Caxemira, Pérsia e Assíria.

Minha mente estava fervilhando com a possibilidade de finalmente conhecer o local sagrado. O Jesus do Kashmir ficou conhecido como Ziarati-Hazrati-Youza-Asouph, profeta, milagreiro e vindo de terra estrangeira. Muitos muçulmanos na Caxemira acreditam que Youza-Asouph era de fato Jesus, também conhecido no mundo islâmico como “O Grande Viajante”.

A susposta tumba de Jesus
A susposta tumba de Jesus

Desbravava as quebradas e artérias de Srinagar onde raramente os turistas visitam. Como num sonho, chegamos a um pequeno mausoléu onde uma placa indicava a tumba sagrada. Um senhor trajando uma túnica sacerdotal aproximou-se. Gentilmente, nos convidou a entrar pelo limpíssimo corredor e abriu a porta fechada por um cadeado de outras eras.

No interior da antessala, uma grade de ferro protegia o aposento onde estava a tumba do santo homem. Sentia as vibrações sagradas do local. O recinto tinha pelo menos mais de dois mil anos de história. Independente de ser ou não ser a tumba de Jesus, estava diante do sepulcro de um homem que havia realizado muitos milagres pela região. A tumba durante séculos nunca havia sido profanada pelos predadores. Estava consumada mais uma das minhas peregrinações.

 

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