Sem sexo há 28 anos, mestre espiritual explica o que faz um guru

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Acredito que qualquer leitor já tenha se deparado com um seguidor de Krishna vestindo um traje esvoaçante de cor alaranjada em alguma parte do planeta.

Ashram Vrajabhumi / Foto: Rafael Salim
Ashram Vrajabhumi / Foto: Rafael Salim

Por onde passam, os ‘Hare Krishnas’ estão sempre cantando, dançando, celebrando, espalhando os passatempos e a consciência do deus hindu.

Seja em Xangai, Amsterdã, Buenos Aires, Avenida Paulista, Roma, Ipanema, Tóquio, ou Campina Grande, eles estão presentes exalando altíssimo astral com seu maha mantra “Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare. Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare”.

Com o advento da cultura New Age, um tsunami de empresas espirituais de autoajuda conquistou e seduziu o mercado: milhares de seitas oxigenadas, grupos, organizações, pajés urbanos, profetas, oráculos, gurus das mídias, gurus do bem, da web, do marketing, do além, surgiram com cases para solucionar o sofrimento, a longevidade, satisfazer os desejos e reverberar a felicidade.

Ashram Vrajabhumi / Foto: Rafael Salim
Ashram Vrajabhumi / Foto: Rafael Salim

Evidentemente, continuamos a ter conquistas na medicina holística, no pacifismo, na consciência do meio ambiente, no amor, nas técnicas de respiração, meditação e yoga, porém, neste emaranhado de materialismo camuflado de religiosidade, pululam clichês sedutores com propósitos, revelações, fontes duvidosas, retiros milagrosos, a busca do santo graal e cursos de formação para atingir a iluminação em uma semana.

Como um humilde servo e expedicionário dos transes coletivos e estados alterados de consciência, o universo dos gurus sempre me magnetizou. Meu primeiríssimo contato com o orientalismo e transcendentalismo foi com o guru indiano Baghawan Shree Rajennesh nos desbundantes anos 80 na Califórnia. Tive o privilégio de conhecê-lo e pude imergir em seu universo místico e espiritual.

Ao longo de décadas, perambulei por diversas manifestações religiosas, seitas, conheci mestres espirituais e o sobrenatural. Em 2010, lá em Rishikesh, na Índia, o guru Sri Prem Baba me disse: “O guru é um poder que tira uma pessoa da escuridão e a coloca na luz”.

Com intuito de esclarecer o que significa o conceito de GURU, decidi conhecer umas das escolas mais tradicionais da Índia, país berço desses líderes.

Maharaji ChandraMukha Swami / Foto: Rafael Salim
Maharaji ChandraMukha Swami / Foto: Rafael Salim

No belíssimo Ashram Vrajabhumi, localizado na região de Teresópolis, no Rio de Janeiro, fomos recebidos pelo carismático Maharaji ChandraMukha Swami, um dos líderes e guru da ISKCON (International Society for Krishna Consciousness). A seguir, o supra sumo de nosso encontro.

Montanhas de Teresópolis, no Rio de Janeiro / Rodrigo_Soldon via VisualHunt.com / CC BY-ND
Montanhas de Teresópolis, no Rio de Janeiro / Rodrigo_Soldon via VisualHunt.com / CC BY-ND

O que é um guru?

Etimologicamente, guru é aquele que é pesado, que dissipa as trevas. Aquele que traz à luz o conhecimento, abrindo as cortinas da ignorância e fazendo os discípulos terem uma visão profunda da vida. Krishna é a fonte, é Deus, e o guru é o representante. O guru é o leme e o discípulo é o motor . O guru foi despertado pelo seu próprio guru, e assim sucessivamente. Faço parte de uma sucessão.

Se a pessoa quer ser um engenheiro, um psicólogo, um médico, ela vai ter que procurar uma universidade e estar realmente credenciada. Na vida espiritual é a mesma coisa, basta ver as centenas de milhares de formandos e profissionais competentes nas escolas espirituais .

Você não deve aceitar qualquer escola ou um sujeito que inventa e cria seu próprio processo, um método do além.

Para almas corporificadas como as nossas, com sentidos imperfeitos, com propensão a errar, a iludir e a enganar os outros, ter um guru facilita o caminho da vida.

Na nossa tradição, o conhecimento védico é descendente, surgiu por um avatar, e os ensinamentos revelados chegaram aos dias de hoje por uma corrente de sucessão discipular. O guru é uma lâmpada conectada numa corrente de sucessão discipular. Ele não criou uma mensagem, não inventou um método, ele é um humilde representante desta corrente.

O guru lapida o discípulo, dá a ele ferramentas para se livrar dos inimigos internos que não permitem sejamos pessoas amáveis, puras, e auxilia que ele manifeste a santidade e o discernimento já existes dentro de nós.

Arthur Veríssimo e Maharaji ChandraMukha Swami / Foto: Rafael Salim
Arthur Veríssimo e Maharaji ChandraMukha Swami / Foto: Rafael Salim

Como foi seu reconhecimento como guru?

Realizei minha primeira iniciação em 1979. Na época, fiz meus primeiros 4  votos (1- não comer nenhum tipo de carne, peixe ou ovos; 2- não se intoxicar, se drogar e beber álcool; 3 – não se envolver em jogatina; 4 – não praticar sexo fora do casamento e ser promíscuo). Sou celibatário deste esta época. Em 1986, fui iniciado como brâmane. À essa casta, permite-se cantar e recitar o mantra Gayatri em horários específicos e outras tarefas.

Nosso guru Srila Prabupada Swami partiu em 1977, e a organização do ISKCON decidiu que era o momento de aumentar o número de membros. Faço parte da segunda geração de gurus e, no Brasil, o movimento Hare Krishna existe há mais de 40 anos.

Qual é a responsabilidade de ser um guru ?

Desempenho esta posição desde 2005. O termo guru, também conhecido como “parampara”, significa que sou representante de uma gigantesca sucessão discipular desde Krishna. A origem é Krishna.

O Bhagavad Gita, nosso livro sagrado, é o diálogo entre Krishna e Arjuna. Krishna representa o mestre espiritual e Arjuna o discípulo. Os ensinamentos e a essência de Krishna encontram-se no Bhagavad Gita. O guru tem que ter conhecimento profundo das escrituras para ser capacitado a instruir e auxiliar novos discípulos e alunos.

Sempre digo que temos que recolher os sentidos e fazer um trabalho interno. Os sentidos são como cavalos, o corpo é a carruagem, e a mente é comparada às rédeas que devem estar conectadas aos cavalos. A inteligência tem que orientar e discernir, ela é comparada ao cocheiro da carruagem, e nós (a alma), somos simplesmente os passageiros.

Maharaji ChandraMukha Swami / Foto: Rafael Salim
Maharaji ChandraMukha Swami / Foto: Rafael Salim

Quantos gurus existem atualmente no movimento Hare Krishna no mundo?

No Brasil, somos quatro, e no mundo existem 88 gurus. Minha base é aqui no Ashram Vrajabhumi em Teresópolis, mas isso não significa que não tenho discípulos em outras localidades. Circulo pelo Brasil e pelo mundo transmitindo ensinamentos e abrindo as mentes e corações.

E para o leigo sedento pela transformação? Existe método ou disciplina para se purificar e estar conectado, ou é “ao deus dará”?

Opa! Existe um processo, uma metodologia que chamamos de sadhana.

Você perguntou sobre um leigo e como ele pode entender e se entregar. Nosso processo é rigoroso e amoroso ao mesmo tempo. É muito simples. Vamos usar o exemplo da criança que acabou de crescer um pouco e tem suas primeiras vontades. Ela começa a reconhecer seu pai e mãe como provedores, e aí ela deseja uma bola, um videogame, uma boneca e entra na fase do “eu quero, eu quero, eu quero”. Isso está errado? Não. A fase em que a criança precisa entender que os pais são seus provedores é essa. Ela continua a crescer e, depois, vai querer dar alegria aos pais, ir para escola, cultivar conhecimento, se formar, virar adolescente, depois adulta, e, no futuro pode vir até a servir aos pais com amor, com apoio financeiro e também de outras formas. Se a pessoa estiver no nível infantil da espiritualidade, por exemplo, Deus é o provedor, o criador.

Eu vejo que o mundo esta se polarizando. Existem pessoas muito legais e gente sem nada a ver. O meio termo é algo raro de se ver. Krishna esta jogando corda pra todo mundo e muitos estão subindo, porém outros estão se enforcando.

Ashram Vrajabhumi / Foto: Rafael Salim
Ashram Vrajabhumi / Foto: Rafael Salim

No Ashram Vrajabhumi vocês recebem muitos grupos de yoga e autoconhecimento. Soube de um episódio de um grupo que ganhou um diploma de avatar no final do retiro. Como foi isso?

Recebemos diversos grupos e pessoas de todos os tipos em nosso Ashram que interagem conosco. Temos uma belíssima infraestrutura.

Um certo dia, um grupo veio fazer um retiro de autoconhecimento, e o valor que os organizadores cobraram foi de mil dólares. Curiosamente, nós descobrimos que os participantes ganhavam diploma de avatar no final da imersão. A pessoa se transformaria em Deus por mil dólares à vista ou parcelado em 3 vezes. Nunca foi tão barato virar Deus!

As pessoas querem isso. Todos querem ser Deus ou alguma divindade. Nós viemos aqui pra quê? Se juntarmos toda a população e perguntarmos o que todos desejam, a grande maioria irá desejar mais beleza, mais poder, maior riqueza, ser a celebridade do momento. Krishna é o repositório de toda a riqueza, opulência, conhecimento, beleza, força e amor. Neste contexto acima, somos deuses de imitação.

Arthur Veríssimo e Maharaji ChandraMukha Swami
Arthur Veríssimo e Maharaji ChandraMukha Swami / Foto: Rafael Salim

Você é um guru multifacetado. Dá palestras, faz workshops, shows, realiza cerimônias, circula no ensino médio, por universidades e corporações. Como é esta vida de andarilho?

Onde quer que haja a oportunidade, estarei lá.

Realizo palestras em universidades, em espaços de yoga e muitos trabalhos em corporações.

Recentemente, dei palestras no PROJAC (Rede Globo) sobre os 7 pecados capitais. As escrituras dizem que nessa era de Kali ninguém irá renunciar, ninguém irá se isolar, se entocar em uma caverna, as pessoas precisam cantar.

Estamos conectados com a energia espiritual através do canto, que é uma forma de purificação profunda, sublime e possível para qualquer criatura.

Não precisa ser erudito. A pessoa canta e se conecta. O canto é a semente que desperta o ser espiritual que está dormente. O mantra Hare Krishna é chamado de mahamantra porque é o mais puro néctar. O mantra é uma revolução interna, promove uma limpeza. O canal de comunicação com Deus está entupido, nossa mente está repleta de entulhos, e o mantra tem este poder de limpar, de desentupir.

Em uma das suas inúmeras viagens pelos Estados Unidos, o nosso guru Srila Bhaktivedanta Swami Prabhupada foi recebido pelos devotos que cantavam e dançavam no saguão do aeroporto. Um repórter maliciosamente perguntou para Prabhuphada qual era a sua missão, e ele respondeu que a missão dele era transformar moscas em abelhas (fiquei sem entender e ele continuou).

As moscas procuram excremento. Mesmo em um jardim florido, elas irão voar até encontrarem excremento para pousar. Ao contrário das abelhas que, mesmo sobrevoando um lixão, vão pousar apenas quando encontrarem uma flor. Minha missão é fazer as pessoas enxergarem o lado positivo e se transformarem em abelhas.

Hare Bo!

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Agradecimentos: SRI Govinda Das