Em San Juan Chamula, religiosos arrotam refrigerante para espantar maus espíritos

O pequeno povoado encontra-se a 2.900 metros de altitude e está localizado no estado de Chiapas, uma das regiões mais alucinantes do México

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San Juan Chamula / Crédito: tatogra via Visual Hunt / CC BY-SA

Chiapas sempre esteve isolado do restante do México devido a sua localização no músculo cardíaco da América Central.

Secretaria de Turismo de Chiapas (SECTUR) / Facebook
Cascada de Roberto Barrios, Palenque / Crédito: Divulgação SECTUR / Facebook

Coladinha à Guatemala, a região ficou conhecida mundialmente a partir de primeiro de Janeiro de 1994, quando, sob as ordens do subcomandante Marcos, a cidade de São Cristóbal de Las Casas e outros municípios foram tomadas pelas forças rebeldes do EZLN (Exercito Zapatista de Libertação Nacional).

Subcomandante Marcos / Crédito: tj scenes via Visualhunt / CC BY
Subcomandante Marcos / Crédito: tj scenes via Visualhunt / CC BY

Com um capuz de alpinista (passa-montanha), onde somente os olhos apareciam, Marcos transformou-se em personalidade de culto mundial. Um verdadeiro revival do carismático Che Guevara. Os tempos passaram, Marcos se afastou da mídia e os zapatistas se estabeleceram próximos a Selva Lacandona, onde ainda habita o último grupo da civilização maia (100 famílias com mais de 700 integrantes), aquele mesmo que o ator-cineasta Mel Gibson retratou em seu filme ‘Apocalypto’.

Cascadas de Agua Azul, Selva Lacandona / Crédito: Divulgação SECTUR / Facebook
Cascadas de Agua Azul, Selva Lacandona / Crédito: SECTUR / Facebook
'Apocalypto', filme de Mel Gibson (2006) / Crédito: Divulgação
‘Apocalypto’, filme de Mel Gibson (2006) / Crédito: Divulgação

Fique tranquilo, caríssimo leitor ou peregrino, o território de Chiapas com seus sítios arqueológicos e comunidades indígenas continua um banquete de aventuras e mistérios para os discípulos de Indiana Jones e Sir Richard Burton.

Sítio arqueológico Bonampak / Crédito: Divulgação SECTUR / Facebook
Sítio arqueológico Bonampak / Crédito: Divulgação SECTUR / Facebook

A base para fazer levantamentos e se aventurar pela região é a cidade de San Cristóbal de las Casas. O caminho é desembarcar na capital do estado de Chiapas, Tuxala Gutierrez e contratar os serviços de um táxi (40 doletas) ou subir as 365 curvas da serra Madre del Sur  dentro de um bumba. A distancia de 88 km é regada por um visual inebriante.

Palácio Municipal de San Cristóbal De Las Casas / Crédito: Divulgação SECTUR / Facebook
Palácio Municipal de San Cristóbal de las Casas / Crédito: Divulgação SECTUR / Facebook

San Cristóbal está localizada a 2.100 metros de altitude e foi fundada em 1528 pelo sanguinário conquistador espanhol Diego Mazariegos. O nome da cidade é uma homenagem ao protetor dos índios frei Bartolomei de Las Casas (1474-1566), que escreveu muitos livros relatando os massacres que os espanhóis perpetraram em suas conquistas na América Central e Caribe.

Catedral de San Cristóbal de Las Casas / Crédito: 16:9clue via Visualhunt.com / CC BY
Catedral de San Cristóbal de las Casas / Crédito: 16:9clue via Visualhunt.com / CC BY

Tive a oportunidade de conhecer um dos melhores guias do sul do México, o figuraça Raul Garcia Lopez,  especialista na história e cultura dos estados de Tabasco, Quintana Rôo, Yucatan e, óbvio, de Chiapas. Em um jantar  depois de “platicar” (conversar sem parar) por muitas horas, Raul deu o mapa da mina: conhecer os vilarejos de San Juan Chamula e Zinacatan no domingão, onde uma infinidade de manifestações religiosas e enigmas borbulhariam diante de nossos sentidos.

San Juan Chamula / Crédito: tatogra via Visual Hunt / CC BY-SA
San Juan Chamula / Crédito: tatogra via Visual Hunt / CC BY-SA

Existem diferenças marcantes entre as duas comunidades vizinhas. Especialistas no cultivo das flores, os “hombres” zinacatecos vestem ponchos roxos e vermelhos com calças curtas. Suas mulheres trajam lindas camisas com estampas de flores.

Zinacantan / Crédito: tatogra via Visual Hunt / CC BY-SA
Zinacantan / Crédito: tatogra via Visual Hunt / CC BY-SA

Por sua vez, os chamulas se vestem com casacos pretos e calças brancas e as mulheres tradicionalmente utilizam camisas azuis.

San Juan Chamula / Crédito: tatogra via Visual hunt / CC BY-SA
San Juan Chamula / Crédito: tatogra via Visual hunt / CC BY-SA

San Juan Chamula é literalmente alucinante. Distante 12 km de San Cristóbal, a vila encontra-se a 2.900 metros de altitude. A Praça Central, em frente da igreja de San Juan Bautista, é um mercado a céu aberto onde uma imensidão de frutas, artesanato, animais, legumes e outras traquitanas são comercializadas.

Praça central de San Juan Chamula / Crédito: tatogra via Visual hunt / CC BY-SA
Praça Central de San Juan Chamula / Crédito: tatogra via Visual hunt / CC BY-SA

Existe uma série de leis e imposições que o viajante tem que obedecer para circular pelas imediações. A mais séria é não fotografar o interior da igreja. Se o folgado assim fizer, corre o risco de ser expulso e receber uns safanões de um policial chamula.

Igreja de San Juan Bautista / Crédito: Adam Jones, Ph.D. - Global Photo Archive via Visual hunt / CC BY-SA
Igreja de San Juan Bautista / Crédito: Adam Jones, Ph.D. – Global Photo Archive via Visual hunt / CC BY-SA

Dentro da igreja, entramos em outra dimensão. O piso é forrado de ramos de cipreste e outras plantas nativas. Dezenas de imagens de santos espalham-se em altares por todos os cantos. Uma autêntica sincronicidade entre os santos católicos e as divindades maias borbulha pela igreja. Os sacerdotes e padres são um capítulo à parte. Iniciam os trabalhos espirituais fazendo o diagnóstico pelo pulso do paciente. Na sequência, velas de diversas cores são acesas. O curandeiro começa a beber posh (pinga) e entra em transe. O frenesi é total. Para retirar a negatividade e os espíritos maléficos, o xamã bebe uma garrafa de refrigerante (Coca, Pepsi, etc…) e solta estrondosos arrotos sem nenhuma cerimônia. A vida é uma caixinha de surpresas até dentro de uma igreja.

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