De águas termais a montanhas multicoloridas: a Islândia além da aurora boreal

O país com cenário cinza-enxofre das erupções vulcânicas é um laboratório de testes de novas tecnologias. Um filme de ficção científica em uma paisagem de conto de Elfos

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Em um distante período da minha infância, o magnético “Viagem ao Centro da Terra”, do escritor Julio Verne, zanzava pelos cômodos da casa de meus pais como uma entidade. A fantástica aventura narrada pelo jovem Axel com seu tio Otto Lidenbrock e o guia Hans costurava meus sonhos e pensamentos. A história começa quando o geólogo Doctor Lidenbrock decifra um manuscrito do alquimista islandês Arne Saknussemm, do século XVI. Já na Islândia, a tríade de aventureiros mergulha nas entranhas do vulcão Sneffels. A saga flutua por labirintos, galerias e precipícios até chegar numa caverna de dimensões colossais. Um mundo paralelo com animais pré-históricos, florestas de cogumelos gigantes, Cro-Magnons e um imenso oceano. Na volta à superfície do planeta, os personagens ressurgem no vulcão Stromboli ao norte da Sicília. A história rendeu filmes, quadrinhos e estimulou outros pesquisadores a fazerem o mesmo. Lá estava este peregrino em uma zona misteriosa na Islândia percorrendo uma região do planeta completamente desconhecida.

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A Islândia está localizada no Atlântico Norte, ao sul do Circulo Ártico. É a segunda maior ilha da Europa e encontra-se a 965 km a oeste da Noruega. Faz parte da imensa Cadeia Mesoatlântica, onde as placas tectônicas da América e da Eurásia se colidem. Por esta situação geologicamente crítica, periodicamente erupções vulcânicas no fundo do mar desenham e formam novos pedaços de terra, montanhas, vales e fiordes. No ano de 1963, surgiu como por encanto a Ilha de Surtsey, depois de uma serie de erupções vulcânicas subterrâneas. Desde então, Surtsey virou o suprassumo para pesquisadores, curiosos e geólogos.

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A natureza encontra-se em contínua transformação por debaixo das gigantescas geleiras e nas entranhas das montanhas. Um borbulhante rio de magma vai modificando a paisagem turbulenta da ilha. Ecologicamente, a Islândia é o país mais castigado da Europa. Para entendermos a história local, nada melhor do que voltar aos primórdios da colonização. No início da primeira leva de colonização viking (870 a 930), a ilha possuía matas e florestas em um quarto de seu território. Todas estas arvores foram derrubadas para criação de pastos. A madeira foi utilizada para construção de casas, navios e carvão. Os endiabrados vikings não perdoaram. Devastaram a frágil vegetação e transformaram o delicado solo da ilha (tundra) em uma imensa erosão.

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O que mais borbulhou durante os quinze dias em que viajei pela Islândia foi o cenário cinza-enxofre das erupções vulcânicas e seus campos de lava. A natureza nesta região é completamente diferente da biodiversidade do Brasil. Por estas plagas, a natureza é selvagem e crua, exibindo lagos seco de lama escura, gêiseres, cachoeiras colossais, piscinas termais, montanhas multicoloridas, geleiras monumentais e muitas lendas de Elfos, gnomo, trolls, fadas e criaturas além-da-lenda.

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Existem 22 vulcões em atividade. Alguns deles como o Hekla, Katla, Krafla e Grímsvotn continuam a causar pesadelos a população. O pior de todos os desastres ocorreu em 1783 com a erupção do vulcão Laki. Cerca de 20% dos habitantes locais morreram. Dá para perceber nesta introdução que a fragilidade ambiental na Islândia é seu maior problema.

Os islandeses herdaram um terra destruída pelos colonizadores vikings e um conjunto emaranhado de problemas ambientais. Um órgão especial do governo Islandês tem como foco a preservação do solo, a reconstituição da vegetação e o reflorestamento. Para vocês terem uma ideia da dificuldade de plantio no solo islandês, o país se encontra na terceira maior geleira do mundo, 15% da ilha é coberta por calotas de gelo e 11% por campos de lava.

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A massa de gelo de Vatnajokull atinge mil metros de espessura e o fogo das atividades subterrâneas continua a derreter e transformar a formação da geleira. Os rios que são gerados dos glaciares não conseguem extrair vida de suas margens para qualquer tipo de plantio. A paisagem do interior da ilha é desoladora. Quando a NASA procurava um local na Terra similar à superfície da Lua para testar suas sondas, escolheu uma área inóspita da Islândia.

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As preocupações com o aquecimento global e novas formas de gerar energia fazem parte do dia-a-dia de qualquer cidadão islandês. Neste exato momento, o clima na Islândia e na região do Ártico está se aquecendo em ritmo avassalador. No dia 21 de agosto de 2015, fiquei imerso juntamente a uma multidão de islandeses e outros turistas escandinavos curtindo um piscinão até às 10h30 da noite. Nesta data, os termômetros na ilha chegaram a 26 graus centígrados, batendo um antigo recorde do século passado.

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Curtir uma piscina faz parte da cultura de lazer dos ilhéus. Existem mais de 200 reservatórios aquecidíssimos para o deleite dos islandeses. Desde 1930, o país iniciou a substituição de energia gerada por combustíveis fósseis por energia geotermal nas cidades e casas. A água encanada vem fervendo direto das usinas geotermais, completamente gratuita para o uso diário do cidadão.

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O país é um laboratório de testes de novas tecnologias. Um grande exemplo é a transformação do hidrogênio em energia elétrica para uso geral. Poderosas empresas com Shell, DaimlerChrysler e General Motors ao lado de cientistas da Universidade da Islândia testam veículos e sistemas de abastecimentos com hidrogênio. Parece filme de ficção científica. A energia geotermal é utilizada para gerar eletricidade e produzir hidrólise, a forma mais conhecida de se obter hidrogênio.

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Na cidade de Reykjavick, existe um sistema experimental de ônibus movidos por este gás. Segundo os pesquisadores, a Islândia, até 2050, será o primeiro país do planeta com economia totalmente fundamentada em Hidrogênio. Estamos falando de uma nação que é um pouco maior que o estado de Pernambuco e com quase 330 mil habitantes.

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A capital, Reykjavick, tem 140 mil habitantes e é considerada por viajantes calejados e turistas exigentes como a mais segura e descolada em todo o planeta. Concordo em todos os sentidos. No verão, os dias são intermináveis. A Luz intensa permanece até à 11h da noite. Lá pelas 3h30 da matina o galo canta e o sol resplandecente escancara no horizonte. No inverno, é o contrário. Noites para Nick Cave nenhum botar defeito.

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Um dos fenômenos de altíssima intensidade é a aurora boreal e os northern lights. Baratão psicodélico que a natureza oferece gratuitamente e de bandeja no firmamento. Os islandeses são ligadíssimos nas artes plásticas, literatura, música, arquitetura, dança e adoram uma balada forte na época do verão. A cantora Bjork esta sempre presente em shows e quermesses vikings.

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A cerca de quarenta quilômetros da capital, entre Kleflavick e Grindavick, localiza-se o mais estonteante cartão postal da Islândia, a maravilhosa Blue Lagoon. O local é uma gigantesca lagoa de lava negra e com água azul-leitosa. A temperatura da placenta borbulha entre os 35 e 40ºC. Spa, relax, cascatas, saunas, massagens e um visual que seus olhos nunca viram na vida. Tambores de lama de Sílica e outros minerais encontram-se a disposição dos usuários para espalhar por todo o corpo. Todo este esquema é controlado pela estação geotermal de Svartsengi, que fica ao lado. Suas chaminés metálicas mais parece cenário da série Star Wars. Durante minha estadia, sempre quando dava, me lançava no caldo afrodisíaco da Blue Lagoon.DSC_0209

Conhecer o interior da ilha, parques naturais, fiordes e geleiras é extremamente fácil. Existe um organizado esquema de atendimento ao turista que está conectada com todas as agências prestadoras de serviço. Um dos locais fundamentais de se conhecer na Islândia é a região de Landmanalaugar. O local, que perdoem os céticos, é um conto de fadas. Enquanto você vai penetrando pelos vales e montanhas a sensação é de estar na história de Júlio Verne, com direito a elfos e gnomos. Ao final do trekking, os viajantes se jogam nas piscinas termais que borbulham por todos os lados.

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Tomei conhecimento da exuberante geleira de Vatnajokull quando fui conhecer o Parque Nacional de Skaftafell. As formações montanhosas pela costa são recortadas por paredões, cachoeiras, pequenas fazendas e uma rodovia impecavelmente asfaltada.

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O cenário mais espetacular na região é a lagoa de Jokursarlon. Icebergs azulados deslizam diante dos nossos sentidos. O local de tão esplendoroso já foi utilizado em muitas cenas de filmes de ação como “Lara Croft: Tomb Raider” e dois James Bond.

Recomendo uma volta em um barco para destilar, em uns 50 minutos, todo o conhecimento que os glaciologistas locais têm a dizer sobre o aquecimento global e o derretimento das geleiras.

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A jornalista Elizabeth Kolbert em seu livro “Planeta Terra em Perigo” investigou que nenhum país tem mais interesse pelo aquecimento global que a Islândia. A caldeira está fervendo e a mudança brusca de temperatura em todo o mundo modificou o regime das chuvas. O fato afetou plantações, florestas e o aumento do nível dos oceanos. Para um observador antenado, o que ocorre é em função do aumento da emissão de gases poluentes derivados da queima de combustíveis fósseis (gasolina, gás, diesel, querosene) na atmosfera. O dióxido de carbono, metano, monóxido de carbono, ozônio, oxido nitroso formam uma camada de poluentes que não se dispersam, causando o maléfico efeito estufa. Este maldito fenômeno acontece porque estes gases absorvem a radiação infravermelha emitida pelo planeta dificultando a dispersão do calor.

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Observamos diariamente informações na mídia e na nossa epiderme que as mudanças estão velocíssimas e os efeitos cataclismáticos já fazem parte da rotina diária. Nunca presenciamos na história da humanidade mudanças tão rápidas e com efeitos devastadores como o que tem ocorrido nas últimas décadas. Nova Era Glacial? Furacões, ciclones, secas, e tufões neste exato momento estão se manifestando com a evaporação exasperada das águas dos oceanos. O derretimento das geleiras é uma das preocupações mais urgentes entre os islandeses. Uma das propostas que mais parece ficção de Flash Gordon é cobrir com mantas as geleiras. Para vocês terem um panorama do desastre ecológico em que vivemos, a mítica passagem Noroeste, ligando o Atlântico com o Pacífico pela região do Ártico se revelou. Caríssimo, o Ártico está perdendo gelo em tempo recorde. Nosso planeta está a deriva, e as decisões políticas continua nas mãos de infelizes. O que podemos fazer destemido leitor?

 

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Sugestão de leitura: “Caiu do céu – o promissor negócio do aquecimento global”, de McKenzie Funk. Editora Três Estrelas