Papua-Nova Guiné: na tribo dos ‘protetores penianos’, traição é paga com porcos

“As mulheres usam saias de fibra curtas e baixas. Os homens, a cabaça peniana, de vários tipos e tamanhos”

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Respirava profundamente invocando divindades protetoras. Procurava fôlego e harmonia de corpo e mente conectando-os ao mundo fenomenal. Lançava olhares de cão sem dono à gerente da operadora, que ria da minha agonia. Estava passando mal com a determinação do funcionário KCB Tours em Bali, que, pela 12ª vez, confirmava: reserva, só em voo de ida – e sem volta – para a região mais remota da Indonésia, Papua Oeste. Com a cabeça engatada no pelourinho do destino, capitulei – já pensava em outra rota quando meu velho companheiro Rui Mendes entra na operadora feito dervixe-exu rodopiante: “Xarope, Arthur? Não vamos desistir. ‘Simbora’ que lá no fim do mundo voltamos de avião militar, navio, jangada, submarino ou nadando”. A gerente, carregada de olho gordo, comunicou que nossa volta estaria reservada para daqui quatro meses – retornar de navio levaria 70 dias. Outra roubada ancestral. Não podia retroceder: a maior aventura da minha vida se iniciaria no dia seguinte.

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Um território sobrenatural, de dimensões gigantescas. Papua-Nova Guiné, terra recheada de enigmas, é a segunda maior ilha do planeta, depois da Groenlândia. No inconsciente coletivo dos grandes navegantes, exploradores, antropólogos, despirocados e freaks, a ilha sempre foi envolta num turbilhão de histórias mal assombradas, pássaros do paraíso, animais extintos, fósseis bizarros, bestas imensas e povos vivendo na idade do bronze em pleno século XXI – destaque para seu ainda hoje vivo canibalismo. Em Irian Jaya, ou Papua Oeste, província da Indonésia que ocupa a metade ocidental da ilha (a outra metade é o país Nova Guiné), vivem centenas de intrigantes grupos étnicos.

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Borbulhando de felicidade, desembarcamos em Jayapura, porta de entrada para nossa meta: o nebuloso vale de Baliem, localizado no centro da ilha. Há mais de nove mil anos, o telúrico vale conjumina centenas de tribos isoladas, cuja cultura distinta é repleta de hábitos bizarros. Enquanto muitos buscam fama, carros, aparições na ‘Caras’, filas em restaurantes ou a graça divina de estar no próximo ‘Big Brother’, eu e o pigmaliônico Rui Mendes (fotógrafo, cinegrafista e bailarino de sapateado) abandonávamos nossa confortável vida inflada de ego para correr impetuosos em busca do excêntrico ‘Dani people’. Vem comigo.

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Fizemos amizade com dois tipos de gente boa, mas exalando um cheiro com nuances de esgoto: passam no corpo uma gosma à base de gordura de porco. Nossos catingosos guias, Mister Marley e Busta, pertenciam às simpáticas tribos Dani e Yali, no vale Baliem. Perguntei qual o motivo de tanto budum. Marley comentou que, na cidade, a pasta de porco, usada como protetor solar, era coisa mínima: na região de Baliem é que a galera se lambuza do hidratante suíno. Qual agente secreto, Mister Marley me levou à decadente delegacia ao lado do Hotel Matoa, onde se Adquire a importantíssima Surat Jalan – a autorização para viajar pelo vale. O oficial não deu a mínima para a minha presença. Educado, pedi sua colaboração. Diante de minha insistência, o cabuloso policial ficou emputecido e disse que a permissão só seria oficializada em uma semana. Respirei fundo e tirei do bolso uma nota de cem doletas. Adivinhe!

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Autorização na mão, cruzei Rui alucinado, sapateando feito Fred Astaire no boteco do hotel, bilhetes no colete. Embarcamos numa pequena aeronave com um piloto sérvio bicudão, lotado de tattoos nacionalistas. Meda! Para exploradores, Irian Jaya é um paradise. O emaranhado de plantações geométricas e uniformes dos povos montanheses assemelha-se a campos e fazendas no Brasil. Não há lugar, no globo, similar em inacessibilidade. A modernização da ilha e a infraestrutura turística seguem a passos de tartaruga. Pelas milhares de ilhas indonésias, o viajante até encontra facilidades; já no coração e cercanias do vale de Bailem, a parada é dura. Foi só em 1938 que o milionário aventureiro norte-americano Richard Archbold se tornou o primeiro gringo a apreciar o vale – 1600 metros de altitude, 60km de comprimento e 15 de largura, rodeado por picos de 2500 a 3000m.

PIROKA KOTEKA
A magnífica morada dos povos Dani, Lani e Yali, famigerados pelos rituais de guerra e costumes pitorescos, é uma viagem no tempo. As mulheres usam saias de fibra chamadas de youngal – tão curtas e baixas nos quadris que parecem que vão cair a qualquer momento. Suas bolsas de corda são muito presentes no cotidiano, sempre carregadas de batatas e crianças. Chama a atenção o item básico da roupa do guerreiro: a cabaça peniana. Chamado de horim ou koteka, a indumentária tem várias formas e tamanhos. Por todas as quebradas da vila de Wamena, os homens andam com as poderosas bazucas penduradas em kotekas tortas – sempre em riste! Mundinho fashion ainda não descoberto por nenhum estilista “étnico” amante de novidades.

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O governo se esforçou para mudar os Dani e Lani de suas cabanas para casas de alvenaria, pois os tribalistas fazem fogueiras dentro das choupanas e a grossa fumaça tóxica é danosa à saúde. Não deu certo. As casas se revelaram fornos de dia e geladeiras à noite. E a fumaça serve para afastar os insetos. Conclusão: em algumas tribos, as novas casas do governo transformaram-se em habitat de porcos – os melhores amigos dos montanheses. Conversando com os locais, descobrimos que é ao sul do vale que se encontram os terríveis Asmaths, exímios caçadores de cabeças. Crânios fresquinhos de inimigos são indispensáveis ao rejuvenescimento espiritual e ao bem-estar da aldeia. Segundo os missionários, a headhunting canibal se extinguiu. Já entre a moçada, que adora piadas escatológicas, a história é outra: me juraram que, ainda hoje, amam uma sopinha de bumbum, pança e miolos de turista.

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Nas primeiras horas em Wamena, observei dezenas de danis ostentando suas kotekas. Fiquei animado e comprei uma peça para emoldurar meu fallus erectus ad infinitum. Instalados no hotel, descolamos o melhor guia da região, o sorridente Mister Scorpion. Nosso objetivo seria conhecer os arredores – e as famosas múmias defumadas. Dia seguinte, viajávamos numa Mitsubishi com guia e dois assistentes fedidos – porém sem koteka – ainda deslumbrados com os intestinos do vale Baliem. Nosso primeiro destino, duas horas de viagem depois, foi Pugima. Como todas as vilas Dani, Pugima é um pequeno grupo de choupanas cobertas de fibras. Feixes de madeira grossa isolam a vila do exterior. O estranho é que as cabanas são divididas por sexo: me explicaram que, tradicionalmente, homens e mulheres dormem separados. Uma cabana longa e regular serve, ao mesmo tempo, como cozinha e chiqueiro dos porcos.

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Próximo a Pugima está a vila de Akima e sua famosa múmia defumada. Nosso guia nos apresentou ao chefe e ao conselho dos guerreiros. Verbinha paga, liberaram geral nossa visita. Estávamos literalmente na Idade da Pedra. Parecia um episódio de ‘Acredite se Quiser’. No interior da cabana principal masculina, uma enorme múmia encolhida num armário. Segundo Mr. Scorpion, ela é mantida como ligação com o sobrenatural, para obter boa saúde, colheitas abundantes, esposas, vitórias nas guerras e leitões na cozinha. A estranhíssima múmia negra é chamada de Werapak Elosarek e dizem ter 320 anos. Foi retirada com muito cuidado da cabana e colocada numa cadeira. De cócoras, todos da tribo vieram tirar fotos com Werapak.

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Partimos para a vila Kampung Sampaina. Mulheres de topless e saiote de fibra chegaram junto: queriam porque queriam ver o que o gonzo tinha debaixo da bermuda. Babando de rir com o chefe e os outros guerreiros, o guia confirmou que a mulherada queria mesmo era fazer o exame da koteka com o repórter. Para escapar, entrei na cabana da múmia Mabel Mimintok, local severamente proibido às mulheres. Relaxei e ajudei a tirar Mabel do armário – no bom sentido. Com 360 anos, mas corpinho de 320, a múmia tem uma koteka preta pretinha. Combinamos participar, na manhã seguinte, dos rituais de guerra – e concordei em ficar nu e agasalhar minha pirokoteka.

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Mr. Scorpions me explica que os Dani creem que os homens e os pássaros viveram em harmonia: não havia diferença entre eles – cada clã desenvolveu afinidade com uma espécie de ave, considerada membro da tribo. A liderança é exercida pelo chefe, dono de muitos porcos e mulheres – entre eles, poligamia é normal. O grave problema é que os jovens não conseguem esposas, pois elas estão compradas por velhinhos ricos de porcos. Detalhe bacana: se o ancião não satisfizer a esposa, ela pode espiar a grama do vizinho – todo o mundo pula a cerca! Mas o sujeito flagrado no momento do chaca-chaca-na-buchaca tem que pagar um “porco multa” ao galhudo da mulher – que usa o suíno para comprar outras minas. Outro dado curioso: tabus proíbem relações desde o quarto mês de gravidez – a interdição dura até quatro anos após o nascimento, o que diminui ainda mais a oferta feminina.

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MASCANDO BESOURO
Pit stop no colorido mercado central de Sampaina. Uma profusão de protetores penianos, frutas, legumes e cintos de conchas (antiga moeda corrente). Na aldeia, uma multidão vestida com os melhores cocares, saias e kotekas nos receberam como se numa rave bem lôca. Fui levado a um canto onde guerreiros me pintaram e passaram o protetor solar suíno. Cheio de dedos, o chefe amarrou meu peru numa portentosa koteka. Me senti o rei da koteka preta. Lá estava o velho Veríssimo peladão, rebolando feito Luma de Oliveira no meio da tribo, eufórica diante de minhas desenvoltas evoluções adquiridas em anos de Sapucaí. No frenesi, me ofereceram um inseto verde vivinho da silva. A iguaria é a conhecida Maria-fedida – simulei mastigá-la e o bicho continuou vivo na minha boca. Sutilmente, cuspi o bagulho num canto. Vibrava com a experiência: em pleno século 21, sintonia cósmica com a Idade da Pedra.

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Cinco dias depois, milagrosamente, de passagem na mão, relaxava na executiva da Merpati Airlines, espiando a imensidão do mar indonésio. A ideia era voltar a Bali para desbundar nas águas de Padang-Padang; meu sábio irmão Rui Mendes seguiria para Nova York, onde montaria sua exposição. Mas adquiri uma diarreia semiletal que me prostrou, durante dez dias, num hospital em Singapura. Maldita Maria-fedida.

Este texto encontra-se no livro ‘GONZO’, publicado pela editora Realejo