Círio de Nazaré arrasta mais de 2 milhões de fiéis pelas ruas de Belém

Todo mês de outubro a cidade vive em festa. Neste ano, o Pará celebra seu 224 Círio

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No ano passado, tive o privilégio de participar, celebrar e vivenciar pela primeira vez a festa de Nossa Senhora de Nazaré, o famoso Círio de Nazaré, em Belém, no Pará. A festa cresce a cada ano desde o século XVIII. Todo mês de outubro a cidade vive em festa por vários dias. Segundo o Dieese, a procissão reúne de mais de 2 milhões de pessoas, número maior que a população local. Nesta sexta-feira (7), acontece a primeira das 12 romarias oficiais do 224º Círio. São 52km pelas ruas de Belém, Ananindeua e Marituba.

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Tudo começou em 1700, quando um nativo da região, chamado Plácido de Souza, achou a pequena imagem de Nossa Senhora de Nazaré, esculpida em madeira, próxima a um riacho. Conta a lenda que o caboclo levou a santa para sua casa , mas ela sempre desaparecia e voltava ao local de origem. Enigma? Para resolver a questão, foi erguida uma pequena ermida, tendo, então, o início da devoção.

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O Círio de Nazaré é patrimônio da humanidade, assim reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Para vocês terem uma ideia, três das onze romarias do Círio – que totalizam um percurso de cerca de 130 quilômetros e 40 horas de peregrinação – reúnem, cada uma, mais de 1 milhão de pessoas.

932436-ciro_basilica_prociss%C3%A3o_ananindeua-8660Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Participei de várias romarias. A primeira foi num percurso de 55 km até a cidade de Ananindeua. Uma muvuca impressionante de carros, bicicletas, gente caminhando e muitos fogos de artifício, gritos de viva e cantoria. Todo a logística deste, e de outros eventos do Círio, é responsabilidade de um grupo de mil e duzentos voluntários: a Guarda de Nazaré.

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Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Enquanto a santa original permanece na Basílica, uma imagem substituta – a Santa Peregrina – é levada em todas as procissões, inclusive na da Corda. Na minha segunda peregrinação, participei da Romaria fluvial. Fui convidado por um pescador para subir em seu barco.

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O trajeto parece uma imensa avenida congestionada. São mais de 600 embarcações com milhares de romeiros e turistas. Seu Durval contou que participa desta romaria há 25 anos. Tudo isso motivado por uma promessa de vida. Cheio de emoção, ele diz: “O barco naufragou e partiu no meio do oceano em um banco de areia. Fomos resgatados depois de 12 horas. Rezei muito a minha Nazinha e fui agraciado com sua bondade. Durante 8 anos paguei minha promessa agarrado na procissão da corda. Você se sente entrelaçado com o divino. Desde então, convido amigos para celebrar na romaria fluvial”.

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O grande momento da minha estadia no Círio foi justamente quando fui para corda. Por mais que eu tenha escutado sobre a procissão, não é possível prever o que acontece quando ela começa a se movimentar.

Começou ás 8h30 desta sexta-feira (10) a procissão que abre a quadra nazarena. A imagem de Nossa Senhora de Nazaré foi posicionada em um carro da PF em frente a Basílica Santuário (Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

É uma experiência definitivamente transcendental e física. Em certos momentos, ela para completamente. De repente, volta a andar com uma velocidade maior, balança para todos os lados, vai para trás e para frente. Em momento algum se tem controle do que vai acontecer. Você simplesmente segue em frente. Na procissão da corda, qualquer pessoa se desmancha e mergulha no coletivo. Todos estão ali com a mesma missão: segurar na corda que puxa a berlinda. Uma entrega absoluta ao divino e a Nossa Senhora de Nazaré.

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Diz a lenda que em 1855 a berlinda (carruagem) que levava a santa atolou e teve que ser puxada por uma corda. A corda que hoje é o principal símbolo dessa procissão.

932433-ciro_basilica_prociss%C3%A3o_ananindeua-8564Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

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¹*Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos