A cultura brasileira viva no Tambor de Crioula maranhanse

O dia em que caí na dança embalada pela tradição máxima da cultura do Maranhão

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Tomava um banho refrescante depois de ter viajado por duas horas de Teresina, no Piauí, até Codó, no interior do Maranhão. Quando pensei em descansar, um frenético ritmo de tambores ecoou por todo o hotel. Fiquei em estado de alerta. Minha curiosidade se aguçava pois iria acompanhar os festejos de Santa Barbara (Yansa) nesta cidade de 130 mil habitantes. Não pestanejei e sai andando hipnotizado pela força dos cânticos e o som dos tambores. A música vibrava a dois quarteirões, precisamente na Tenda Espírita de Umbanda Rainha de Iemanjá, onde são praticados rituais e celebrações da religião afro-brasileira Terecó. No salão principal, uma imensa roda onde três abatazeiros (tocadores de tambor) junto com outros cantores contagiavam a plateia. Os homens comandam o toque e puxam os cantos.batuque4

O Grupo se chama “Tambor de Crioula Afro-Codó” e foi fundado em 1977. A roda ao redor dos músicos é composta na totalidade por mulheres com saias coloridas. O requebrar é explicito. Olhares, gestos, feições e o movimento sensual sacodem o corpo e o espírito. A comunicação é orgânica. Ao compasso das melodias, palmas e gritos, entra uma bailarina no centro da roda. Suas evoluções esquentam o ambiente. Escuto de soslaio uma senhora dizer que a Ritinha cigana dança espalhando brasas. Ritinha encanta e o público bate palmas, grita e assobia. Repentinamente, ela se aproxima com um gingado miúdo e dengoso em minha direção. Ela chega junto, me dá uma umbigada, isto é, encosta sua barriga no meu abdômen. Sou convidado para entrar na roda. Saio dançando do meu jeito e deslizo sobre o chão. Dou algumas requebradas e, como um caboclo da mata, retribuo a umbigada em uma mulata faceira que gargalhava com meus movimentos. Tudo ali é a mais pura brincadeira e encantaria.batuques1

Todos se divertem. Todos são contaminados pela tradição da música, da dança e dos costumes. A manifestação do Tambor de Crioula é expressão máxima da cultura maranhense e reconhecida como patrimônio cultural do Brasil.

Continuo minha maratona por mais dois dias acompanhando os festejos de Santa Barbara (Yansa). Presenciei outros toques de atabaques. Quando for ao Maranhão, caia na gandaia ao escutar o som do Tambor de Crioula. É a terapia dos Encantados.batuques5

Folclore
1 –
Os tambores chegaram ao Maranhão nas mãos dos escravos vindos de Guiné, Congo e Angola, mas eram proibidos pelas autoridades. Em 1938, Mário de Andrade fez a primeira documentação sobre a dança, durante sua famosa Missão de Pesquisas Folclóricas pelo Brasil.

2 – O Tambor de Crioula foi reconhecido pelo Ifhan, em 2007, como patrimônio imaterial brasileiro. O Tambor de Crioula em sua manifestação tem como seu padroeiro São Benedito. Em alguns grupos, a presença da imagem do santo é colocada próximo ao local da dança e, em alguns momentos, carregado nos braços. Em São Luís, há cerca de 80 grupos oficialmente cadastrados. A cidade proclamou 21 de junho como o dia oficial do Tambor de Crioula.

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