Na Malásia, lenda viva maori faz tatuagem com pedras de jade

A convenção de tatuadores de Bornéu e os lendários “headhunters”, os caçadores de cabeça

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O avião sobrevoava o mar do sul da China em direção a Kuching, capital do Estado de Sarawak, na Malásia. Para viajantes, antropólogos, expedicionários e tatuadores, a região é a ilha da fantasia. Um banquete generoso para experiências inusitadas. Meu destino é um ponto na imensa ilha de Bornéu, a terceira maior do planeta. Seu território é dividido entre Malásia, Indonésia e o enigmático sultanato de Brunei. Fui passar duas semanas para conhecer os lendários “headhunters” (caçadores de cabeça) e suas tatuagens fascinantes. No ano anterior, havia recebido um convite para conhecer a convenção de tatuagem tribal de Bornéu.

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Organizei com antecedência península e lá estava em Damai, a cerca de 35 quilômetros de Kuching. A curiosidade borbulhava por todos os poros e sentidos. Minha intenção era aproveitar a estadia e percorrer a ilha para conhecer sua natureza exuberante. A primeira excursão foi visitar o Parque Nacional de Bako. Com plantas carnívoras e insetos do período devoniano, o local é selva para Mogli nenhum botar defeito. Em suas entranhas, vive o raríssimo Macaco Proboscius narigudo (Nasalis larvatus). O macho está sempre com sua genitália em riste. E a fêmea, por sua vez, instiga o parceiro para coitos ininterruptos.

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Estava focado em conhecer as tribos ancestrais e suas técnicas de tatuagem tradicional. Existem dezenas de grupos étnicos em Bornéu, os mais conhecidos são: kayan, punans, dayak, ibans, orangs ulus, quênias, bidayuhs e kelabits. Todos estas etnias preservam suas tradições, culinária, arquitetura, danças, hábitos e, sobretudo, a arte da tatuagem. Os ibans e os dayaks realizam designs simétricos. Todas as tattoos são feitas nas partes centrais do corpo, sempre desenhadas em pares. Segundo as divindades e ancestrais, elas equilibram e balanceiam corpo e espírito.

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Os desenhos estão em absoluta conexão com os reinos vegetal e animal. Caranguejos, lagostas, sapos, flores, morcegos, escorpiões, insetos, cavalos marinhos e as famosas Bunga Terung – clássicas flores negras (berinjelas) tatuadas nos ombros, braços, peitos e costas. As Bunga Terung, para os dayaks, são tatuadas para as grandes jornadas na vida e como alimento para os espíritos tutelares. As tatuagens entre os quênias e os orangs ulus, possuem como marca registrada desenhos abstratos em zigue-zague pelos braços das mulheres.

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Durante a convenção, tatuadores de diversas partes do mundo estiveram presentes: Johnny “Two Thums” (dois dedões), de Cingapura; Leo Zuleta, da Califórnia; o incrível Tin Tin, da França; Hori Hito, do Japão; os amigos Hercoly Rocha e Andre Meyer, do Brasil; o chefe tribal samoano Su’a Saluape e o casca grossa maori Beano “Lone Wolf”, da Nova Zelândia. Este último utiliza uma  técnica ancestral com pedras de jade para tatuar e foi um dos criadores de cenários para a série “Senhor dos Anéis”. Aproveitei o momento e entreguei minha pele para uma belíssima tatuagem maori, realizada pela lenda viva.

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Após a convenção, me embrenhei pela floresta para conhecer as longhouses dos Ibans. Eles vivem nestas imensas casas comunais com muitas famílias. Algumas chegam a ter mais de 150 pessoas. Elas são construídas na margem dos rios sobre palafitas e sua estrutura é na maioria das vezes de madeira.

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O habitat mescla o período neolítico com os tempos modernos. Por dentro, as casas são equipadas com uma imensidão de televisores e aparelhos eletrodomésticos de última geração. Toda tecnologia divide espaço com as tradicionalíssimas cabecinhas cortadas de outras tribos. Pois é, eles são headhunters.

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