Desvendando Abu Simbel, uma das joias da coroa dos mistérios do Antigo Egito

Histórias, lendas e hipóteses seduzem exploradores pela região onde foi erguido o símbolo de poder de Ramsés II que reinou de 1279 a 1213 a.C

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O calor e a falta de ventos castigavam impetuosamente nossos corpos. Havíamos desembarcado do vôo de Assuan à Abu Simbel em uma viagem de 45 minutos. Já na porta de saída do aeroporto a dificuldade de respirar aumentava gradativamente. Viajar pelo Egito e não conhecer o Santuário e templo de Abu Simbel seria como ir a Lua e não pisar em seu solo sagrado. Estava realizando um sonho de criança de poder finalmente conhecer uma das joias da coroa dos mistérios do Antigo Egito. Histórias, lendas e hipóteses seduziram centenas de exploradores por esta região da Núbia onde foi erguido este símbolo de poder e marketing do fantástico Ramsés II que reinou de 1279 a 1213 a.C. Imaginem a sensação do historiador e orientalista suíço Johann Ludwig Burckhardt que redescobriu em 22 de março de 1813 o majestoso templo. Disfarçado de turbante e vestimentas tradicionais, Burckhardt foi levado por um guia para conhecer o templo de Hathor dedicado a Nefertari (esposa de Ramses II) que faz parte do conjunto de Abu Simbel. Sua surpresa foi quando se deparou na subida de uma duna algo sepultado com dimensões colossais no meio da areia. Ficou em êxtase. Quatro anos mais tarde o incansável explorador italiano Giovanni Battista Belzoni cavou uma pequena abertura na parte superior do portal onde se encontrava a entrada interior do santuário. Em seu diário Belzoni descreve que A primeira vista ficamos assombrados pela imensidão do lugar. Encontramos objetos de arte magníficos, pinturas, esculturas e figuras colossais”. Para vocês terem uma ideia depois de dezenas de séculos, um ser humano violava os segredos e mistérios da obra mais pessoal que o faraó Ramses II havia encomendado aos seus arquitetos e tudo, acreditem se encontrava intacto.DSC_0046

A partir de então arqueólogos e egiptólogos se lançaram para decifrar os hieróglifos e revelar para o mundo, o conteúdo da enigmática descoberta. A secura da atmosfera e o calor comprimiam meu cérebro. Sufocado com a falta de ar, comprei uma garrafa de água mineral e parti para a peregrinação de Abu Simbel.DSC_0069

Admirava o esplendor e a complexidade externa dos templos do Deus Rá e da Deusa Hathor que foram erguidos para perpetuar o culto do grande Ramses II e de sua esposa Nefertari. Esculpido entre as rochas o templo principal tem em sua fachada quatro estatuas de 30 metros de altura do faraó. Três delas continuam intactas. Ramses II governou o império faraônico durante 66 anos de seus 92 anos de vida. Suas conquistas e legado encontram-se espalhadas por diversos sítios arqueológicos no Egito. No interior do Templo principal encontra-se registrado nas paredes uma farta documentação das façanhas militares de Ramses II contra os núbios, hititas, líbios… Na parede norte você pode fazer sua leitura da batalha de Kadesh em que o faraó destruiu as forças hititas. Desenhos, hieroglíficos, esculturas imensas, cartuchos e muitas evidências de um povo altamente sofisticado.Cartucho

O trabalho dos artistas e escultores evidencia que tudo o que observamos naquele complexo faz parte tanto do presente como do passado. Você aprende e absorve em uma outra dimensão. A sabedoria transborda das paredes e esculturas. Abu Simbel é um portal de navegação espiritual esplendoroso. Conexões a parte, o problema é que a distancia até Assuan é de 280 quilômetros e o tempo de visita, curtíssimo. Grupos de turistas escandinavos, asiáticos e latinos se espremem na ante-sala do templo de Hathor, construído por Ramses II e dedicado a sua amada esposa Nefertari.Interior do Templo

Ramses II teve muitas esposas, amantes e mais de 90 filhos, porem sua consorte predileta chamava-se Nefertari. O segundo templo é fascinante, os traços e a delicadeza dos rostos e corpos das estatuas na entrada deixam os discípulos de Tintin e Indiana Jones em outra dimensão.Ramses2

Uma nova proeza faraônica foi realizada a partir de 1964 sob o patrocínio e organização da Unesco para salvar Abu Simbel e outros templos. Existia a possibilidade de Abu Simbel ficar submersa com as águas do lago Nasser devido à construção da nova barragem de Assuan. Uma mega-operação foi acionada, desmontando o complexo em 1.112 blocos e reconstruindo 60 metros acima em uma colina. Paredes, estátuas, colunas e esculturas foram remontadas. A epopeia levou quatro anos e as equipes de salvamento conseguiram recolocar os templos quando as águas da represa já inundavam. O sucesso pode ser observado quando a luz do sol durante os equinócios em fevereiro e outubro penetra a câmera (o sancta-sanctorum) iluminando as estátuas de Harmakis, Ramses e Amon-Rá. Como há três mil anos, os raios do sol aquecem os três deuses deixando apenas a estátua de Ptah (O Deus Criador) na penumbra. Ramses II permanece esculpido na memória da humanidade, perpetuando a fascinante cultura dos Faraós.DSC_0056