Zo’és: os índios isolados da Amazônia que vivem nus e têm intensas trocas matrimoniais

Vivenciei dez dias com os Zo´és e digo que foi a experiência mais rica que tive em minha vida

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Você sabia que existe um departamento de índios isolados da Funai no Brasil trabalhando há décadas para proteger a integridade destes grupos indígenas da nossa delirante sociedade hedonista? São 210 povos indígenas isolados na floresta tentando sobreviver ao assédio dos madeireiros, garimpeiros, missionários, curiosos e predadores. A princípio, foram localizados alguns grupos na imensidão da Amazônia e, dentre eles, os fascinantes índios Zo’és.

44_421Depois de muitas tentativas, conseguimos a autorização da Funai para viajar ao coração da floresta, no município de Cuminapena, no noroeste do Pará, distante 263 km de Santarém. Estava extremamente feliz por poder conhecer os Zo’és, cuja população atual é de 186 indivíduos vivendo no seu hábitat natural.

Fomos recebidos por uma multidão de índios em uma imensa clareira nas vísceras da floresta. Completamente pintados de urucum, os Zo’és se aproximaram com muita docilidade – e dificuldade – me fazendo perguntas.foto zo'é XU e arthur fazendo barba

“Nome?”. Respondi “Arthur”. Todos começavam a rir e a me cutucar. “Quantas muié tem Athor?”. Fiz com a mão “uma”. A gozação explodia e começaram a gargalhar. Quatro índios levantaram o dedo indicador e baixaram suavemente como se brochasse. “Athor mujito flaco”. Um índio chamado Kuru – que depois se tornou um grande amigo – levantou três dedos e soltou “Kuru forte! Três muié!”. Delírio geral: nunca tinha tido uma experiência desta magnitude. Estava literalmente no Shangri-lá ao encontrar essas criaturas divinas vivendo como há milhares de anos iguaizinhos aos seus ancestrais. foto zo'é camuflado tirando onda

Essencialmente, os Zo’é são caçadores e coletores: sua dieta compõe-se de carne de porco do mato, macaco, veado e aves. A pesca e o consumo da mandioca, na forma de farinha e beijus, são fundamentais. O que não falta nas refeições é a pimenta, presente em caldos e ensopados. Açúcar e sal não existem na culinária dos Zo’é. A pureza deles é emocionante. Xu, um dos chefes, perguntou-me se na nossa sociedade trocávamos alimentos. Eu disse que não. Assustado, ele revelou: “Quando Zo’é não trocar mais comida , Zo’é morre” .foto indias zo' és com foto do João

Com o passar dos dias, comecei a entender como é a vida na comunidade. Na aldeia não existe cacique ou hierarquia. Eles vivem completamente nus e são muito vaidosos com sua indumentária. Sua marca registrada por excelência é o tembetá de poturu. O adorno, que é como um piercing, é um pau comprido e branco, usado no lábio inferior. Desde pequeno, o índio é furado por um osso ou dente de macaco. À medida que o Zo´é cresce, o diâmetro do poturu aumenta. Os homens usam uma palha para envolver o pênis e as mulheres pintam o corpo com urucum, enfeitando-se com chapéus de palha e tiaras feitas de penas de urubu-rei. Usam também muitas pulseiras de caramujo. Vivem em intensas relações e trocas matrimoniais. Um exemplo de flexibilidade no lar é o caso da índia Deby, casada com Xu, Tywaj, Tea Ho e Kuru.

Vivenciei dez dias com os Zo’és e digo que foi a experiência mais rica que tive em minha vida. Na despedida, a emoção transbordou. Um misto de profunda amizade e amor ficou impregnado nas nossas relações. Nunca me esquecerei destas criaturas iluminadas e autênticas.

foto india ZO´e linda com penachos

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