Festival da Piroca Cor-de-rosa é louca veneração ao pênis no Japão

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Se você acredita que os japoneses são sujeitos recatados é porque nunca ouviu falar no Kanamara Matsuri – mais conhecido entre os estrangeiros pela alcunha nada singela de Festival da Piroca Cor-de-rosa. Secular rito de celebração da fertilidade, essa romaria fálica talvez seja o maior exemplo de como os japoneses lidam com o sexo e o que se passa na mente coletiva do arquipélago. Para conhecer de perto a famosa Piroca Rosa de Kawasaki, contei com a ajuda de dona Emiko, uma guia que conhecia todos os caminhos que levam ao grande falo.

No dia do evento, ela transbordava de felicidade. Minha mulher e eu éramos os dois únicos turistas a participar da excursão fálica de dona Emiko. Ela nos conduzia pela superlotada estação de Shinagawa para pegar o trem com destino à distante periferia de Kawasaki. A borbulhante dona Emiko explicava com inglês impecável (raro no Japão) o caráter e a história do Kanamara Festival. Mesmo parecendo bizarro para os olhos ocidentais, dentro dos padrões japoneses o evento é normalíssimo. Perguntei se ela não ficava envergonhada diante de um ‘fallus’ protuberante. Dona Emiko caiu na gargalhada, obviamente com as mãozinhas protegendo a boca. Respondeu que os festivais de fertilidade acontecem por toda a ilha ao longo do ano, principalmente na primavera. Não há porque ter vergonha de um festival que trate o sexo com tanta autenticidade, ela me diz. Fiquei na minha refletindo e cheguei à conclusão de que existem muitos conceitos e ideias pré-estabelecidas na nossa sociedade sobre a rigidez da sociedade japonesa.

481DSC_2718A pérola de dona Emiko foi quando ela disse que era amiga do sacerdote do templo xintoísta que iríamos visitar e que, se quiséssemos, poderíamos desfilar carregando o pirocão. Fiquei exaltado. Na hora, tirei da mochila uma peruca cor-de-rosa e um pequeno robe de chambre. Disse a ela que tinha me preparado para entrar na romaria sem autorização, na cara-de-pau. Ela me olhou seriamente, disse que nós éramos seus convidados, que iríamos com crachá oficial e que poderíamos usar um pequeno galpão ao lado do templo, onde os japoneses se vestiam com quimonos dos mais diferentes matizes de cor para a parada.

Sintonizado com dona Emiko, a viagem terminou rapidamente e logo estávamos atravessando a rua em direção ao templo xintoísta. Pelas ruas, o desbunde se desvairava. Emiko sacou da bolsa a típica bandeirinha de sinalização de guia perguntando: “Are you going to need this?” (vocês vão precisar disso?, em português). Respondemos “nooooooooooooooooo”. Estava dado o tom da nossa romaria da piroca: a mais pura descontração.

DSC_2693Quando chegamos ao epicentro da concentração, a multidão animadíssima comprava acessórios fálicos e, na parte frontal do templo, três relicários (mikoshi) com suas respectivas pirocas eram consagrados pelos participantes. O símbolo fálico estava espalhado por toda a área do templo xintoísta, em ilustrações, chocolates, velas, pirulitos, decorações e fantasias. Eis que a destemida dona Emiko surge como uma aparição, no meio da algazarra, colada ao sacerdote. Ele nos apresenta o mestre da Pirocoland e somos agraciados com um passe livre e a permissão para carregar o falo cor-de-rosa.

Fomos encaminhados para o local onde seria iniciada a minha transformação. Como num passe de mágica, um grupo de especialistas na arte de vestir o quimono montava meu visual nos fundos do templo. Quando me olhei no espelho, tomei um baita susto. Havia dado a volta no planeta para me transformar numa drag em uma comemoração japonesa. No início, fiquei desconfiado. Depois de um tempo, percebi que era o único ocidental a caráter na procissão, ao lado de um monte de japs aloprados, e acabei entrando no clima.

512A lenda do pirocaço
O Kanamara Matsuri é uma antiga tradição popular que consagra e busca ajudar a prosperidade, a reprodução, a fertilidade e a harmonia no matrimônio. Uma de suas vertentes, que se arrasta desde 1603, leva as prostitutas a cultuarem a data para se protegerem das doenças venéreas e arrumarem um bom casamento. Nos tempos atuais, parte da renda da venda dos objetos e doações é revertida para um fundo de pesquisas sobre a AIDS.

Diz a lenda que havia um demônio escondido dentro de uma jovem moça. A delicada cortesã já havia passado por duas tentativas de casamento. Na noite de núpcias, tragicamente os dois pretendentes foram castrados. Um grupo de sacerdotes se reuniu e percebeu que a moça estava possuída. Surgiu a ideia de que um falo de aço era a ferramenta ideal para libertar a moça e seus noivos da maldição. A decisão foi tomada e um consolo foi encomendado a um ferreiro. No terceiro casamento, no momento do vuka-vuka primordial, a piroca de aço foi introduzida na moça e os dentes do demônio quebraram-se, libertando a donzela do pesadelo. Desde então, o ‘fallus’ de aço foi canonizado.

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482Descascando o nabo
O início do festival esquenta a parte mais sagrada do templo, em que uma missa é celebrada para recordar a origem do festival, pedir autorização às divindades tutelares e agradecer pelas conquistas e pelos frutos colhidos ao longo do último ano. O interior é repleto de rabanetes, nabos e outros vegetais em forma de vagina e piroca – caralhões que vêm sendo colecionados ao longo de anos de festivais. No lado externo do templo, um grupo de agricultores oferece enormes tubérculos para a turistada e os japs literalmente descascarem o nabo. Aproveitei o ensejo e, com a mão na massa, criei um pirocão branco de grande proporção.

Já naquele instante a multidão não parava de me fotografar. Sim, pessoal, eu fui uma das grandes estrelas do festival, modéstia à parte. Não tinha jeito de ficar escondido. Usava uma megaperuca cor-de-rosa e estava envolvido por um quimono estilo arco-íris. A versão nipo-brasileira de Priscila, a rainha do deserto. Já devidamente enquadrado no esquema soltinho na marola, me dirigi para a área da concentração. Com seus trajes típicos, os participantes se aqueciam, oravam e se posicionavam para carregar os três relicários representando suas associações: o pinto preto de aço que representa os metalúrgicos, a piroquinha de madeira da associação dos comerciantes (incluindo membros da Yakuza) e o falo cor-de-rosa da comunidade local, de drags e deste repórter desavisado.

Sinos, tambores e cânticos são embalados junto com os fogos de artifício. É dado o sinal de partida. A turma do aço segue na frente, para delírio da multidão. O relicário de madeira é acionado e senhoras, jovens e mafiosos entram em transe coletivo. Logo atrás, o alegre grupo cor-de-rosa entoa um mantra que é repetido por milhares de pessoas (“Deika mara, deika mara, deika mara”). Não me pergunte como, mas quando dei por mim, as palavras já saíam de minha boca naturalmente. À frente da romaria, um dos sacerdotes caracterizado de Tengu (mítico pássaro das lendas japonesas), com seu imenso nariz fálico, incendeia a galera incensando o caminho e limpando o ambiente para a parada borbulhar.

Meu grupo era composto de uns 20 japoneses recém-saídos do armário com perucas, vestidinhos, saltos altos, maquiagem, bijuterias e muita perna peluda. Na algazarra geral, famílias, vovozinhas e crianças insistiam em fotografar e serem fotografadas ao lado do ‘fallus’ cor-de-rosa e de nossa comitiva de frente. Disparamos pela avenida central de Kawasaki, onde redes de TV, curiosos e documentaristas registravam a performance com os relicários e a descontração dos participantes. Dezenas de milhares de pessoas se espremiam pelas bordas das ruas lambendo seus pirulitos pirocudos e divertindo-se como criança em festa de aniversário.

500DSC_2701Minha boiolice contagiante
A peruca dançava sobre a minha cabeça. Nunca em toda minha vida de gonzologismo tinha sido tão fotografado, filmado e dado tantos autógrafos. Sim, amigos, autógrafos em meio à turba ensandecida. Pergunto para uma das minhas carregadoras de relicário qual era o percurso. Ela apenas sorri e me dá um beliscão na barriga. Ihhhhhhh, percebi que a boiolice estava contaminando os integrantes.

Olho para o relógio e detecto que já desfilávamos há mais de três horas. Solto o cavalete do mikoshi e saio para dar um rolê. É impressionante a energia e a seriedade com que a comunidade local carrega os falos de madeira. A maioria é de homens vestindo pequenos quimonos e botinhas brancas, muitos deles de bunda de fora. Mas sem veadice. É uma coisa, assim, natural. Não há drags entre eles. Observo que todos têm enormes tatuagens camufladas pelos quimonos. A Yakuza, naquele momento, dominava o relicário e proibia as fotografias. Miudinho, me aproximo e sou convidado por um dos elementos a marchar ao lado. A veneração ao falo daquele grupo é coisa seríssima.

Saio de fininho e continuo minha peregrinação à procura da turma cor-de-rosa. Nosso encontro foi uma loucuraaaaaaaaaaa. Uma pequena parada gay se forma com travecas, bigodões ocidentais e bichinhas nipônicas. Duas travecas japonesas colam na minha jugular. Querem abraçar e tocar. Perguntam a minha nacionalidade. Exclamo burajiro-jin (brasileiro). Uma delas tasca um beijo selvagem na minha bochecha. Tento explicar que “Fenômeno” só existe um e que bate um bolão.

Como um ninja cansado de tanto ser assediado, escapo e arranco a peruca. Encontro dona Emiko com vários pirulitos e amuletos na porta dos fundos do templo. Sou desenrolado do imenso quimono e volto a vestir minha roupa de anônimo. Quando entramos no trem em direção a Tóquio, sinto uma vibração estranha. As duas travecas haviam me localizado. Mamavam seus pirulitos e faziam de tudo para serem notadas. Que imbróglio. Dona Emiko delicadamente pergunta o que buscavam. Adivinha. Queriam ser fotografados comigo. Papo duvidoso e fenomenal.

Este texto encontra-se no livro GONZO, da editora Realejo, de autoria de Arthur Veríssimo.

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