Capital mundial do yoga atrai devotos sinceros e madames com tapetinhos

Arthur Veríssimo mostra Rishikesh, espécie de Caminho de Santiago de Compostela - só que na Índia -, que inspirou até álbum dos Beatles

788

Em 1968, John, Paul, Ringo e George realizaram uma viagem literalmente transcendental e mística ao Oriente. Quando chegaram à Índia, foram direto ao ashram (uma mistura de mosteiro e spa hindu) do yogue e guru Maharishi Makesh, fundador da meditacão transcendental, que havia seduzido o quarteto e milhares de pessoas no Ocidente.

Maharishi foi um dos responsáveis pela globalização da espiritualidade indiana nos anos 1960, e seu ashram ficava nas cercanias da cidade e portal sagrado de Riskikesh. Os Beatles, neste período em Rishikesh, aproveitaram o local inspirador e criaram joias musicais que borbulham no exuberante álbum branco. O que aconteceu por lá foi um manjar dos deuses para os fãs e adoradores da banda.

DSC_0055Rishikesh é uma pequena cidade , no estado de Uttaranachal, no norte da Índia, e fica de sete a oito horas de viagem de nova Delhi. É considerada a capital mundial do yoga, pois é destino de dez entre dez praticantes que visitam a Índia. Palavras como ayurveda, kundalini, tantra, asanas, meditação, mantras, shiva, ganesh, durga, sarawasti, pujas, massagem, guru, incenso e pranayana fazem parte do vocabulário diário de qualquer ocidental e jorram pelos restaurantes, palestras, rituais, vendinhas e conversas nos cafés.

Há séculos, Rishikesh foi onde muitos gurus, homens santos e sábios montaram seus ashram e retiros espirituais. Começou a ficar famosa no Ocidente, a partir da década de 1930, quando Swami Sivananda fundou, à beira do Ganges , o ashram da Divine Life Society.

DSC_0403Desde então, levas de buscadores, gatas, devotos sinceros, ambientalistas, socialites, libertários, easy-riders, yogues, meditadores e deslumbrados batem ponto no local quando visitam a Índia. Figuras notáveis passam temporadas imersos, recebendo as purificações, bênçãos e ensinamentos de seus gurus em completo sigilo.

Um dos pontos nevrálgicos é a ponte de Laksman Jhula, onde um turbilhão de hippies, fashionistas, japoneses, rastafáris, homens-santos, macacos, motocas e madames desfilam com suas mochilas e tapetinhos de yoga, no vaivém da ponte.

DSC_0158

DSC_0154Existe um café ao lado da ponte que mais parece um observatório-zoológico de criaturas das mais diversas tribos do universo new-age. Tudo é extremamente divertido, o alto-astral impera. Nesta região, existem diversas opções de massagem, artesanato, joalherias, lojas de tecidos, CDs e algumas livrarias.

DSC_0116

DSC_0175Sempre encontramos alguém de outra latitude ou mesmo do Brasil para trocar impressões e experiências. A paquera rola solta. Existem diversos locais para se banhar e fazer rituais de purificação à beira do Ganges. Alguns redutos são pequenas praias. Depois de um banho gelado e regenerador, vale a pena ficar por um par de horas curtindo o sol e meditando. Pelas quebradas dos arredores de Rishikesh, existem alguns saddhus vivendo isolados e morando em cavernas.

DSC_0378Sadhu é o título dado a todas as pessoas que se dedicam a espiritualidade e que renunciaram aos desejos do mundo. Claro que há picaretas no meio. Alguns andam nus e passam cinzas em seus corpos, a grande maioria tem longos dreadlocks (jatas) e andam com o tridente de Shiva em seus pertences.

Ao longo da minha vida, tenho convivido com diversos sadhus nos festivais religiosos na Índia. A maioria faz parte de organizações religiosas tradicionais e segue os ensinamentos de seus gurus.

DSC_0109

DSC_0410Rishikesk é também a porta de entrada para o Char Dam, a sagrada rota de peregrinação aos quatro santuários de Badrinath, Khedarnath, Yamunotri e Gangotri. Uma espécie de caminho de Santiago de Compostela, aos pés do Himalaia.

“Todo ano , entre maio e meados de novembro, as rotas encontram-se abertas para a peregrinação. Realizei esta façanha há quatro anos durante 22 dias e percorri 1.300 km de carro, a pé e montando cavalos. Tudo para expurgar pecados e ficar mais perto dos deuses.

Mas isto já é uma outra história. O fato, caríssimo leitor, é que não é preciso dar a volta ao mundo para perceber a verdadeira identidade. Porém, uma viagem para um lugar como Rishikesh ajuda a atiçar e motivar a busca pela própria verdade. A viagem, especialmente se for para um lugar sagrado, enriquece e nos aprofunda no caminho do autoconhecimento.

Serviço
Ashram
Ashram Yoga Niketam
Fundado por Swami Yogeshwaranand Paramahans, mestre de Raj Yoga, oferece treinamentos físico, mental e espiritual, com cursos abertos a todos, sem distinção de casta, credo ou nacionalidade, segundo a instituição.

Sivanand Ashram
É o ashram da Divine Life Society, fundado por Swami Sivananda à beira do Ganges em 1936. Foi o lugar que deu o pontapé para a popularização de Rishikesh no Ocidente.

Hotéis
Hotel Atali
Tem vista magnífica para o rio Ganges e fica longe da muvuca da cidade. Na recepção do hotel, você pode conseguir muitas dicas e expedições. O restaurante é variado e o café-da-manhã, riquíssimo.Figura entre os 50 melhores hotéis do mundo, segundo a lista da Condé Nast 2013.

Dewa Retreat
Descoladíssimo, muito bem localizado e com um staff de alto nível. Os quartos são limpos, arejados e os serviços, excelentes. A culinária é um conto a parte: o chef é supremo nas mais diversas delícias da Índia. Vale cada centavo de rúpia.